terça-feira, 20 de junho de 2017

Um sopro

É isso que é a vida... um mero sopro... 

Os últimos acontecimentos nacionais têm mexido muito comigo e têm me ajudado a perceber que, infelizmente, todos carregamos a nossa cruz... uns mais, outros menos...

Todos, um dia, sofreremos na pele a dor da perda... só que uns mais cedo do que outros...

E é isso que me faz confusão... o porquê de "uns" e de "outros"? O porquê de determinadas pessoas sofrerem mais do que outras? O que teremos nós, os que sofrem duros golpes ao longo da vida, de menos merecedor do que os "outros"? É a pergunta de sempre: O porquê nós?

Cada vez mais me convenço que não há resposta a esta pergunta... questiono-me muitas vezes, e fico a pensar onde falhei? Em que altura da minha vida errei para estar agora a "pagar" por isso? Será castigo? Mas de quê?

Leio muito, pesquiso muito para tentar encontrar respostas às minhas perguntas... procuro, incessantemente, perceber as razões que levam determinadas pessoas a sofrerem mais do que outras...

Há tempos comprei o livro "Quando Acontecem Coisas Más às Pessoas Boas" e, ao lê-lo, percebo que as coisas acontecem porque tinham de acontecer... que não vale a pena arranjar culpados... não vale a pena culpar Deus... não vale a pena remar contra a maré...

O meu marido tinha de partir aos 38 anos e aquelas pessoas tinham de ficar presas naquela maldita estrada. Ponto.

Do que nos adianta nos revoltar e culpar o Universo... ele voltará? Não!

Não é fácil {oh, não é mesmo}, mas procuro convencer-me disso para não enlouquecer... há dias que há maior discernimento do que outros, há dias em se procura ser racional e pragmático... há outros em que se lixe o racionalismo e a nossa vontade é de desaparecer deste mundo... como tudo na vida são fases.... porque, infelizmente, a vida é efémera, e esta tragédia é a prova disso...

Nesse livro, procura-se mais do que questionar o "porquê?", questionar o "E agora?"

Esta semana, nas televisões portuguesas e nas redes sociais não se falará noutra coisa, a não ser na tragédia do incêndio de Pedrógão Grande... os murais do Facebook estão repletos de mensagens de apoio, de lamento, de tristeza...

Esta semana, os portugueses estão de luto... e para a semana?

Cada um regressará à sua vidinha... planeará, quiçá, as suas férias de verão, irá jantar fora, rir, passear, namorar... e os enlutados? Estes tentarão, a todo o custo, reerguer-se e voltar a "rotina" {se  que alguma vez se volta a alguma coisa depois da perda}... e os Portugueses solidários?

Sei que é assim e que tem de ser assim... a vida continua, e "os outros" não podem parar por nossa causa... mas, sabem que foi, e continua a ser uma das coisas que me tem custado mais... ver "os outros" regressarem às suas vidas felizes... não é inveja, e a sê-la é "inveja sem maldade", até porque não sou pessoa de desejar mal a ninguém, sei o quanto dói... mas, é aquela sensação de impotência, de paralisia, de "querer e não ter"...

Nunca me esquecerei do que a minha irmiga Su* me disse dias após o funeral do Jorge... confessou-me que o que mais lhe custou nesse dia foi não ter estado mais tempo comigo, porque eu estava sempre rodeada de muita gente... ela voltou para casa triste... por sentir que não me estava a apoiar o suficiente... mas, o marido mostrou-lhe que essas pessoas todas regressariam a suas casas, mais cedo ou mais tarde... e depois?

Acho lindo essa onda de solidariedade, acho mesmo... mas sabem, o pior mesmo é o que vem a seguir... acreditem!


4 comentários:

little fairy disse...

Descobri hoje o teu blog através da Joana Paixão Brás, li o teu comentário ao post dela sobre as mães (pais) que têm que tratar dos filhos sozinha...
Fui ver o teu blog e realmente não há coincidências...fazendo uma leitura rápida pelo mesmo, encontro o meu marido numa das tuas fotos. A atividade musical em Paços de Ferreira no Carnaval, ele é o baterista. Eu estava lá com os meus filhos nesse dia por isso cruzamo-nos mas nunca imaginando eu o pesadelo que estavas a viver...também eu vivia um pesadelo nessa altura... 15 dias depois perdia a minha prima (quase irmã) de 42 anos para o cancro essa maldita doença!!!
Depois dessa perda, 2 meses depois, perdemos também um amigo, enfermeiro, de 38 anos com a mesma doença...deixou também dois filhos de 3 anos.
É tão dura a vida, tão amarga...e sabes que tenho a certeza que um dia (mais cedo ou mais tarde) todos teremos esta maldita doença...
Vivo com medo agora, porque sei que infelizmente não chega só aos outros...mas no meio do medo temos que ir vivendo e mostrando aos nossos filhos que a vida é muito mais bonita do que realmente ela é mesmo...
Força! Qualquer coisa estou aqui <3

Cátia

Ana Filipa Oliveira disse...

Também eu vim aqui parar pelo teu comentário ao post do blog da Joana.
Sou daquelas pessoas que felizmente até agora vive sem grandes golpes... e sou grata por isso, pois sei que a qualquer instante esta minha história pode mudar. Por vezes não sou "grata genuína", sou "grata medrosa" pelo que possa vir a acontecer. Mas temos mesmo que nos focar no lado rosa da vida, para não mergulharmos em definitivo na escuridão. Força, coragem para o agora, e para o que vem a seguir (ou veio). Um abraço em fraternidade.

Anónimo disse...

Olá! Também eu vim aqui parar após ler o seu comentário no blog da Joana... Também eu faço uma pergunta semelhante à sua: "Se aconteceu a eles pode acontecer a nós, porque não?"Assim como a Ana Filipa também felizmente tenho vivido sem grandes golpes e sempre vivi sem medo da morte que devido à minha profissão de enfermeira há muito trato por "TU"! Porém algo mudou no de 25 de Agosto de 2015 quando o meu filho Rodrigo nasceu! E é nele que penso quando vejo o rosto dos anjos que partiram nesta tragédia, é no sentimento de impotência em salvar os seus filhos daquelas mães que me provoca este aperto no peito que não me larga desde domingo de manhã!Sou a semelhança da Ana Filipa uma "grata medrosa" e repito para mim baixinho: temos os filhos para o mundo! Não conseguimos controlar o destino resta-nos acreditar no lado rosa da vida ... admiro-a a partir da primeira frase do seu comentário! Força MÃE CORAGEM!!
Cristiana

NAMoura disse...

Também eu vim aqui parar pelo teu comentário ao post do blog da Joana. Perdi o meu marido em Janeiro. Ele deixou uma bebé de dois meses na altura. Sinto que ninguém pode compreender o que estamos a passar. Tenho de ganhar coragem para contar a nossa história. Obrigada por te poder ler.