sexta-feira, 16 de março de 2018

Saber esperar**

As idas {poucas, que infelizmente, ainda tenho feridas - bem mais profundas do que imaginava - para curar} ao hospital para visitar o meu pai têm-me proporcionado momentos de reflexão... enquanto espero para entrar, vou-me embrenhando do mundo à minha volta. 

Semblantes tristes. Passos apressados. Sorrisos. Lágrimas. Pais, felizes, carregando o ovinho do seu mais recente rebento. Histórias de pessoas cujas vidas as atraiçoaram. 

O meu pai já lá está há uns bons dias. Vai conhecendo pessoas. Histórias. Ri com uns. Chora com outros. 

Vamo-nos afeiçoado às pessoas. Às suas histórias. Vamos percebendo que todos carregam a sua cruz. Umas mais pesadas do que outras. Mas, todos a carregam. 

Basta um quarto de hospital para perceber que há vidas bem complicadas.

O meu pai já lá está há 21 dias, por isso muitas histórias desfilaram naquele quarto. Mas há sempre aquelas pessoas que marcam mais do que outras.

O Sr. J., que anima os dias com o som do rádio a tocar ou com as suas resmunguices simpáticas. Mas, que desde que soube que teria de ir para um lar, perdeu-se num silêncio perturbador. 

O Sr. A., cuja queda de três metros o deixou agarrado a uma cama. De prognóstico muito reservado. O mundo desaba a qualquer momento. Tudo parece perdido. Mas, a vida, às vezes, lá se lembra de surpreender e como que se de um balão de oxigénio se tratasse, alguns movimentos do seu corpo fazem as lágrimas irromperem de esperança. 

O Sr. R., o mais recente companheiro de quarto, que, do pouco tempo que lá estive, fartou-se de bufar em sinal de protesto. À comida. Às dores. À vida. E, vejam só, à Casa dos Segredos. Dizia ele "olhem me para aqueles... estão melhor do que nós!"

Naquele momento, os sorrisos rasgaram os rostos tristes de quem vê a vida a passar num quarto de hospital.

Tantas vidas, e todas unidas a um verbo fundamental: esperar

Todos os que lá estão têm de esperar. E, acreditem, não é de todo uma tarefa fácil. Esperar que a dor passe. Esperar o resultado de um exame. Esperar pelo médico. Esperar. Esperar.

Numa sociedade cada vez mais "apressada", esperar parece um flagelo. Ninguém tem tempo para esperar. Ficamos irritados, stressados quando há trânsito, fila para pagar as compras, quando a Internet está lenta, e a página demora a abrir, quando o filho demora a tomar o pequeno-almoço ou a tomar banho.

Depois há aquelas esperas que nos vão matando, dia após dia. Conheço muitas esperas. Vivi esperas difíceis de esperar. E em todas elas, tentei convencer-me que a paciência é, e será, sempre a maior das virtudes.

Para uns já é algo de inato. Para outros tem de ser trabalhado. Pertenço a esse segundo grupo, o que tem de trabalhar a paciência, a espera. Não me considero uma pessoa impaciente, mas sinto necessidade de ser melhor nessa arte de esperar.

O meu Jorge era um poço de paciência. E, quando me sinto mais agitada, lembro-me dele, e da sua agilidade natural em ser paciente. E ponho um travão nessa pressa que me consome.

O mundo gira sempre à mesma velocidade. A nossa pressa não irá alterar a sua velocidade.

Parar. Pensar. Ficar a só conosco. Ouvirmos o nosso silêncio.

Eu sei que a vida é uma correria, que há horário a cumprir, mas porque não tentar?

Há dias, esperava a minha mãe para almoçar no shopping. Esperei meia hora. E o que fiz eu desses 30 minutos de espera? Li um livro. Encostei o telemóvel. Deixei-me ficar no carro a ler. Alienei-me do mundo, naqueles 30 minutos. E que bem que me soube. Podia ter feito imensa coisa. Mas optei por aproveitar aquela espera para fazer algo que gosto: ler.

Saber esperar é uma arte cada vez mais em desuso. Uma arte que é fundamental repensar, e sobretudo praticar, todos os dias, sob pena de sermos engolidos pela nossa ânsia de acelerar a vida.








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