quinta-feira, 3 de maio de 2018

"Achar-se no direito"

No livro "A Subtil arte de dizer que se fod@", o autor faz referência aquelas pessoas que passam a vida a usar {e abusar} daquele "estatuto" do "achar-se no direito de..."

Aquelas pessoas cujos dias são de um lamento entediante... e que por isso, consideram que a vida, as pessoas, o mundo, whenever devem ter "pena" delas e, como isso vão aproveitando para desculparem as suas atitudes por detrás desse escudo.

É legítimo que fiquemos revoltados, zangados com tudo e todos. Que nos magoemos com comportamentos, atitudes. Que nos sintamos "inferiorizados" por nos termos vistos despojados do que mais amamos. Que sintamos "raiva" por vermos a felicidade alheia.

Tudo isso é legítimo... mas, até certo ponto. A raiva inicial vai dando lugar à aceitação e à tomada de consciência de que, há situações que fogem ao nosso controlo. E que não vale a pena culpabilizarmos tudo o que mexe pelas dificuldades que atravessamos.

É importante irmos entendendo que "achar-se no direito" não é desculpa para sermos egocêntricos, egoístas e deixarmos vir ao de cima o pior que há em nós.

No domingo à noite, enquanto arrumava a cozinha, a minha atenção prendeu-se numa reportagem que passou no Jornal da TVI. Falava de um senhor que  tinha tudo para ser feliz, mas não o era. Por isso, dedicou-se em procurar a fórmula para a felicidade. E diz ter encontrado.

Fiquei curiosa. Afinal, quem não busca essa fórmula? 

O mais interessante nesta reportagem prende-se no facto deste mesmo senhor, ter perdido um filho com 17 anos. E mais, este mesmo homem escrevia sobre a felicidade poucos dias após a morte do filho. Como é que alguém escreve sobre a felicidade uns dias após a morte de um filho? 

Bem, ele simplesmente canalizou as suas energias em como conviver com essa perda. Aprendeu a partilhar  a vida com essa dor. Transformou a dor. Escolheu não sofrer. 

Este mesmo homem poderia {e com legitimidade} "achar-se no direito" de tomar determinadas atitudes menos corretas - enveredar pelo alcoolismo, passar a ser violento... afinal a vida também ela fora violenta com ele - como forma de compensar a sua perda.  É o que, muitas vezes, a sociedade espera de nós. 

Nos primeiros dias, após uma perda, todos ficam preocupados conosco. Vigiam os nossos comportamentos. Analisam o nosso discurso. Parece que esperam de nós uma explosão de emoções que extravase o nosso ser. Ficam atentos aos sinais que possam evidenciar um comportamento dito "de direito". 

Acho curiosa essa ideia que prolifera por este mundo de se "achar no direito". Digo isso porque sei que uma perda, um acontecimento marcante, pode efetivamente turvar-nos as ideias. Já tive essa sensação de me achar no direito porque afinal fiquei viúva com 33 anos, com um filho de dois nos braços. Já me senti injustiçada por achar-me no direito de... mas depois parei para pensar. E não era aquilo que queria para mim. Ter pena é das piores sensações do mundo. Não quero ser a "coitadinha que ficou viúva com um filho". Não quero aquele olhar de pena. Senti-o muitas vezes, e infelizmente, ainda o sinto.  Muitas pessoas, querem compensar a perda que tive com atitudes que não concordo, nem aceito. Não há nada a compensar. Não há como preencher esse vazio. Não há "tem mais direito porque.. ". Esse "ter direito" não aceito.

Quero sim, o direito.. de procurar a minha felicidade. De fazer aquilo que eu sinto que me pode ajudar. De viver a vida que eu sinto ser melhor para mim. Procurando não magoar ninguém, mas também não baixando a cabeça ao que os outros querem. Fui aprendendo isso. Fui trabalhando o saber dizer que "não". É custoso. Quem me conhece sabe que é o meu calcanhar de Aquiles. Para agradar os outros, vou relegando os meus desejos para segundo planos. É uma aprendizagem. Constante.

Tal como o é viver. Viver de acordo com aquilo que acreditamos.

E, que reside em coisas mínimas... como o sorriso do meu filho. O seu abraço. O seu olhar. Sentir que ele é feliz. Reside em ter os meus por perto. Sentir a amizade. O carinho. Reside em aproveitar o pouco que temos tornando-o no muito que nos faz bem. ღ

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